Colunistas - PEDRO MATIAS

Sobre ser um homem gordo em uma sociedade extremamente gordofóbica

18 de July de 2017
Minha mãe me enviou algumas fotos da infância e do início da adolescência hoje. Um pensamento se instaurou na minha cabeça em consequência delas: eu não fui uma criança gorda. Apesar das tribulações na vida pessoal, isso me motivo a escrever.

A minha infância foi marcada por um ser uma criança gorda. Eu me julgava enorme: obeso (como gordo, eu rechaço o termo obeso, mas isso fica para outra discussão). A minha vida toda foi definida por eu ser gordo: tive de aprender a lidar com isso e a me defender das piadas, das "boas intenções", dos conselhos, do "eu só quero o teu bem", o que foi afogado em diversas lágrimas e em uma angústia sem fim. Até hoje isso tem reflexos na minha autoestima e na definição do meu eu. Eu lembro que os meus "amigos" na escola cantavam a música dos bananas de pijama alterada pra mim> "baleias de pijama, quebrando as escadas, baleias de pijama, uma dupla bem pesada"... Nunca esqueci: era baleias no plural, porque eu era tão gordo que valia por 2 baleias. Foi o que eles me disseram.

Depois, no início da adolescência, a pessoa que eu considerava meu "melhor amigo" me disse que eu morreria virgem, porque as meninas teriam nojo de transar comigo. Mesmo tendo sido o primeiro do meu grupo de amigos a ter uma relação sexual, essas falas tiveram um impacto severo na percepção de se eu era capaz de atrair as mulheres. Para mim sempre foi muito difícil me aproximar de alguém com intenção de flerte porque seria um absurdo alguma mulher se sentir atraída por mim. Até hoje eu tenho de respirar fundo antes de iniciar conversa com um possível interesse desse tipo. Isso não é timidez (eu não sou tímido), e eu demorei muito tempo para entender que esse o é resultado de um processo muito mais profundo, que instalou em mim a ideia de que eu sou indesejável.

Contudo, olhando essas fotos, tive de encarar o fato inquestionável para mim: eu não fui uma criança gorda. Eu olho para minhas fotos de 14 anos, com uma cara de piá, e tenho de encarar a realidade de que eu sofri, e muito, por ser enorme, mas eu me julgaria, se encontrasse hoje minha versão infantil, uma criança magra. O quanto foi fator decisivo para eu me tornar realmente um homem gordo o fato de todos me tratarem como uma criança gorda? Quantas vezes eu comi horrores por angústia? Comi muito rápido para que não me vissem comendo? Pulei diversas refeições para emagrecer desesperadamente? Quantas dessas atitudes me fizeram realmente engordar? Eu voltei quase meu ensino médio todo a pé para casa. Eu fiz, em uma época que não era moda, mais academia que todos os meus amigos magros. Eu não me lembro de ser uma criança e um adolescente sedentário, mas todos me enxergam assim: nada que eu fazia era suficiente.

Qual foi a influência da gordofobia na minha transformação em um homem gordo? Não sei. Só sei quero esta sociedade não hesitou em me levar até as beiras de pensamentos suicidas, não hesitou em fazer uma criança acreditar que não tinha amigos e a culpa era dela por ser gorda, não hesitou em fazer um adolescente se sentir nojento, não hesitou em matar, pouco a pouco, pedaços significativos de quem eu sou. Muita gente pergunta por que eu tenho uma fênix tatuada no braço. Uma das razões é porque me mataram um pouco todo dia, e eu estou vivo só porque eu aprendi a renascer todo dia: por mim e pelos outros que, como eu, estão morrendo.
 
Foto do(a) PEDRO MATIAS

PEDRO MATIAS

Educador. Um sujeito à procura de um predicado. Luto para mim é verbo.
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