Colunistas - RAFAEL BASSI

Uma ode aos clubes de livros

24 de June de 2017
Uma ode aos clubes de livros
Recordo-me que em casa sempre tivemos livros. Minha avó gostava muito de ler e eu me lembro perfeitamente de vê-la sentada nas cadeiras da varanda, depois de todo o serviço doméstico feito, primeiro rezando seu terço e depois lendo durante mais de hora. A mãe lia bastante também e é por isso que ela assinava, nos anos 80, o famoso Círculo do Livro, que entregava mensalmente romances pelos Correios. Como vivíamos no interior, isso era perfeito, já que não havia livrarias na cidade (e continua não existindo até hoje).

Falo isso porque no último mês tive uma experiência incrível. Fui convidado pela Casamundi Cultura, um espaço cultural muito interessante, com cursos os mais diversos, a mediar uma discussão conjunta com leitores assosciados da TAG livros sobre o livro do mês de maio. Eu sempre acreditei na existência desses espaços onde a divulgação cultural se torna o ponto principal do espaço. Lugar onde se pode dialogar com outras pessoas, onde se pode criar cursos que geralmente não estão disponíveis a um público interessado e cheio de vontade de discutir as mais diversas facetas culturais: desde literatura, passando por arte, cinema, gastronomia e filosofia. Por isso a minha alegria ao participar de eventos na Casamundi.

Mas aqui, deixo registrada, também, minha felicidade ao ver o empreendimento da TAG livros. Eu conheci o projeto analisando as propagandas que me apareciam constantemente nas minhas redes sociais. A pessoa pode se associar e recebe, todo mês, um livro surpresa, dentro de uma embalagem com uma revistinha sobre o livro, o curador que escolheu a obra e o autor. Além de um “mimo” enviado aos associados.

O livro que eu deveria debater era “Os irmãos Sisters”, do canadense Patrick DeWitt (que eu já resenhei para o Jornal Opa! anteriormente). Fiz minha leitura, minhas observações, deixei vários post-its ao longo das páginas e preparei uma apresentação repleta de imagens para dar aos ouvintes o contexto histórico no qual o enredo do romance se passa: os EUA no século XIX e a corrida do ouro no far-west. O encontro ocorreu em um sábado, em uma manhã bastante acinzentada em Porto Alegre. Perfeito para decidir-se ficar na cama por mais algumas horas, à espera de levantar-se para um almoço. Mas, para minha surpresa, mesmo com o evento marcado para as 9:30, a Casamundi lotou. Foi o evento que mais teve presença, segundo me contou a Thirza, gerente sempre simpática e atenciosa com a organização dos trabalhos.

Na sala havia tanto pessoas já associadas há tempos como pessoas que nem haviam lido o livro ainda, mas que queriam experimentar aquela oportunidade dada pela TAG em parceria com a Casamundi. Reencontrei, também, duas alunas, que tiveram aula comigo há mais de quatro anos, ambas já quase formadas nas suas respectivas áreas: Débora, em letras, e Carol, em psicologia. Não sei se era por causa da minha estreia como docente do local ou pelo fato de que esta seria a minha primeira experiência como mediador de um diálogo literário, eu estava ligeiramente nervoso e ansioso, principalmente.

Em um lampejo, decidi, na hora, uma improvisação na minha apresentação. Algo que me ocorreu, pensando a partir das minhas recordações pessoais, que expus no primeiro parágrafo dessa coluna. Disse a eles a minha alegria em relação aos clubes de livros, porque graças a eles, minha mãe obteve uma considerável biblioteca, que hoje pertence a mim, e na qual dei meus primeiros passos na leitura. Lembro-me de minha mãe todas as vezes em que pego algum desses livros e vejo seu nome escrito, a data da chegada do livro e, de vez em quando, ela ainda colocava alguma frase de algum autor famoso entre aspas, dizendo coisas sobre livros, sobre coragem, sobre a vida ou outras tantas coisas. Não posso negar que nesses momentos procuro minha mãe para trocar algumas palavras, ainda que por telefone.

Pensei, naquele momento, no poder que os livros têm. É piegas e clichê, mas é de uma verdade infinita – pelo menos para mim. Se de fato “os livros não mudam o mundo, mas mudam as pessoas, que mudam o mundo” conforme já se dizia há tempos, aquele espaço e aquele evento me mostraram que há, sim, gente disposta a mudar a si mesmo através da literatura. As duas horas se passaram e não notamos. As discussões se deram e nós ficamos sérios e rimos, em uma alternância saudável de emoções e bate-papos que, creio eu, engrandeceram-nos a todos. Pelo menos foi isso que afirmamos ao final do encontro.
Se a felicidade, a eudaimonia grega, é fazer aquilo para que nascemos com tendência, naquele pequeno pedaço de tempo do dia fomos felizes. O tempo não se abriu e virou um grande dia ensolarado, mas isso em relação ao céu, porque nós saímos, certamente, mais iluminados e alegres daquele lugar.

Estou convicto que a literatura (e a arte, de modo geral) não salvará o mundo burocrático e economicista em que vivemos, mas ninguém pode nos dizer que não saímos melhores e que, melhorados, iremos melhorar a vida em nossa volta. Nossos problemas não estão ligados aos aumentos e diminuições das bolsas de valores ou das taxas de câmbio, mas são problemas sérios, com os quais lidamos e nos preocupamos imensamente, nem que seja por apenas alguns momentos de nossos dias.

Como o caso da senhora Gerda (que eu infelizmente não soube o sobrenome, mas que o Tiago – um dos proprietários da Casamundi – me disse posteriormente ser uma grande médica e pesquisadora de sua área e, ainda que com bastante idade, continua com uma atividade revigorada), que chegou em mim após a palestra, segurou em meu braço e disse que “precisa de um ombro para chorar”, já que estava horrorizada com a tradução que fizeram do livro “Nossas noites”, de Kent Haruf, quando, em determinado momento, aparece um “por hora”, sendo que o certo, segundo a norma culta, seria “por ora”.

Continuava ela: “o tradutor não pode fazer isso, não se pode deixar de ter o cuidado com a língua dessa maneira”. Aquele era um problema para a senhora Gerda, como é para mim, quando leio traduções. Pode ser um problema do tamanho de um grão de areia, mas naquele momento, para nós dois, era como uma questão atemporal, metafísica. Era, de todo caso, uma questão digna, dessas que nos preocupam e nos acompanham por dias. Era importante para nós, pois, aprendemos com Gullar, “a arte existe porque a vida não basta”.
 
Foto do(a) RAFAEL BASSI

RAFAEL BASSI

Rafael Bassi é professor, doutorando e, quando pode, escreve. Lê muito e vê muito filme. Mantém um blog sobre os mesmos temas que devaneia por aqui (http://rayuelascafes.blogspot.com.br/). Escreve sua coluna semanalmente no Jornal Opa!

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