Colunistas - MIA SODRÉ

A suposta imparcialidade jornalística perante as Ocupações

12 de November de 2016
A suposta imparcialidade jornalística perante as Ocupações
Quando Martha Gellhorn, uma das mais longevas correspondentes de guerra do século XX, escreveu que “eu relatei o que vi e ódio era a única reação que tais visões foram capazes de produzir” ao falar sobre a Segunda Guerra Mundial, ela estava justamente dizendo que nem sempre um jornalista pode ser neutro.
 
Sei da importância de se manter uma postura imparcial no Jornalismo, mas isso cai por terra ao vermos grandes veículos da mídia formal fingindo uma neutralidade que não possuem, escolhendo títulos tendenciosos para suas matérias e dando enfoque a órgãos oficiais, fazendo com que o leitor esteja informado, sim, mas não de forma neutra. Sou a favor da mídia se posicionar, mas não de manipular leitores usando uma máscara de imparcialidade.
 
O que chega ao ponto em que quero me estender: as ocupações. Estudantes universitários de todo o país têm ocupado suas faculdades a fim de protestarem contra a chamada “PEC da Morte”, que pretende congelar investimentos em educação, saúde, entre outras áreas. A mídia alternativa tem feito coberturas excelentes, validando essas manifestações, tão essenciais ao futuro político do país. Contudo, a tradicional vem se eximindo de responsabilidade ou, quando muito, apoiando órgãos oficiais e dando destaque a palavras de autoridades governamentais ao invés dos depoimentos dos que estão lutando por um futuro melhor.
 
Um jornalista sério não pode opinar, pois seu dever é informar de forma imparcial? Pois bem, que o faça. Mas que não seja covarde a ponto de se esconder atrás de uma entrevista feita com alguém possuidor de um cargo alto e dizer que “apenas escrevi o que a fonte disse”. Nós, profissionais da comunicação, sabemos que a coisa não é bem assim e que temos autonomia para dar destaque a uma fala ou outra num texto.
 
Na Assembleia Extraordinária, que os estudantes da PUCRS fizeram para falar acerca da PEC 241/55 e votar por uma ocupação geral, havia cerca de 200 pessoas, todas ouvindo e sendo ouvidas, tudo feito com o maior respeito, num movimento legítimo e pacífico. Como estava tarde e muitos ali dependiam de ônibus para voltar para casa – sendo que os horários de transporte público são precários –, foi decidido que a votação seria feita no próximo dia 16, para que a democracia seja respeitada e todos tenham direito ao voto. O que a mídia tradicional noticiou? Que a votação pela ocupação não avançou por falta de quórum. A isso eu chamo de matéria tendenciosa de jornalistas que não estão comprometidos com a verdade, mas que se posicionam, veladamente, contra o movimento de ocupação.
 
Cerca de metade daqueles estudantes que ocupam a PUCRS não fazem uso de nenhum tipo de bolsa. Não são Prounistas ou vinculados ao Fies. São simplesmente jovens cidadãos que não aceitaram ser alienados por seus privilégios de classe, por terem condições de pagar uma mensalidade absurdamente alta para ter uma educação que lhes devia ser gratuita de direito. São jovens que possuem empatia por aqueles colegas que dependem de programas de bolsa e crédito para estarem na mesma sala de aula que eles. Um movimento político por excelência porque todo ato é político, e só não o sabe quem prefere ficar dentro do conforto da caverna, com seus memes internéticos e seu mundo projetado por sombras amigáveis e conhecidas.
 
Assim como Gellhorn, não posso me abster e adotar uma neutralidade falsa perante esses acontecimentos. Porém, diferentemente dela, a única coisa que posso relatar é o sentimento de orgulho ao ver essa juventude lutando não apenas por seu futuro, mas pelo futuro de incontáveis colegas e crianças para que todos possam ter acesso e permanência no Ensino Superior. E que nenhum direito nos seja tirado!
Foto do(a) MIA SODRÉ

MIA SODRÉ

Aprendiz de jornalista na PUCRS, tia da biblioteca, leitora compulsiva e metida a escritora nas horas vagas.

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