Colunistas - MIA SODRÉ

Lolita: uma história de terror

11 de October de 2016
Ilustrador: Vini Oliveira
  Ilustrador: Vini Oliveira

Vi uma professora da USP recomendar o clássico russo como uma grande história de amor e me perguntei: será que estou errada? Não estou. Errada está a sociedade, com sua cultura do estupro, que romantiza a pedofilia e não ousa criticar livros consagrados por estes serem obras de arte – como se a arte não tivesse por propósito justamente nos fazer refletir e questionar a realidade à nossa volta.

Lolita, livro do escritor russo Vladimir Nabokov, publicado em 1955, conta a história de um professor, com cerca de 40 anos, chamado Humbert Humbert que tem uma tara por uma menina de 12 anos chamada Dolores – a Lolita – e, para se aproximar dela, se casa com sua mãe. Até aí a coisa já está bem errada. Mas só piora. O livro, narrado em 1ª pessoa, é o discurso de Humbert tentando convencer a todos de que ele não é um criminoso, apenas um homem apaixonado. Um homem apaixonado que se casou com a mãe da menina, esperou a mulher morrer, sequestrou a Lolita, lhe drogava para que ele pudesse abusar dela enquanto ela dormia e ainda a chama de perversa porque, obviamente, ela o seduziu. É claro.

Alguns podem perguntar por que é relevante escrever sobre um livro publicado em outro século e criticá-lo como se a moralidade da época fosse a mesma dos dias atuais. Porém, por vezes, não nos damos conta de que os tempos passam, mas a arte é atemporal e crítica, reflexo da sociedade, sim, mas nem sempre – e, infelizmente, no caso desse livro, de forma alguma – pausada no tempo como apenas uma pintura de algo que ocorreu e já não mais acontece. Vivemos num país em que, segundo uma pesquisa recente, 42% dos homens defendem que a culpa do estupro é da mulher. Certamente essa porcentagem é bem maior, haja vista que essa pesquisa se trata de uma amostragem e é óbvio que nem metade da população brasileira foi entrevistada. Portanto, tais questões (cultura do estupro e romantização da pedofilia) não deveriam ser deixadas de lado como se fossem de menor importância. E o fato de que a maior parte dos leitores de Lolita compra a narrativa nada confiável de Humbert é prova de que estamos bem longe de ouvir a vítima e ainda damos preferência ao agressor.

Os “críticos” de Nabokov, defensores de Humbert, costumam afirmar que Lolita não foi vítima de pedofilia e estupro pelo simples fato de que, de acordo com nosso suspeito narrador, ela confessou já ter tido experiências ditas sexuais com meninos da sua idade. Isso nos leva a um ponto muito interessante no discurso de todos os grandes moralistas que culpabilizam a mulher pela violência sofrida: se não era mais virgem não ocorreu estupro. Como se o fato de uma pretensa vida sexual pré-estupro pudesse simplesmente desculpar o criminoso, dando-lhe a escapatória de ter caído na sedução de uma jovem altamente sexual, mesmo que ainda adolescente. Como se a existência de um hímen fosse o grande divisor de águas entre quem merece o papel de vítima e o de sedutora.

Humbert não é um doente. Sua racionalidade em explicar seu desejo e manipular o leitor de forma sublime para que ele seja convencido de que seu sentimento por Lolita é amor atesta isso. Quando ele percebe que Lolita está envelhecendo, pensa em ter uma filha com ela para poder dar continuidade à sua tara com uma “Lolita II”. Todas as noites ele ouve Lolita chorar – por sua infância perdida, por sua vida destruída, por seu corpo objetificado, abusado. E mesmo assim continua a chama-la de perversa, tentando nos convencer de que ela o seduziu. Humbert é um homem racional e cuidadoso, pego num crime e tentando se defender durante um julgamento. Não um doente.

No entanto, Nabokov não deve ser condenado junto com Humbert. Tampouco posso dizer que o livro é ruim: a narrativa de Vladimir é incrível! Ela é tão maravilhosa que – infelizmente – conseguiu convencer várias pessoas de se tratar de uma história de amor. Há centenas de leitores que defendem Humbert, culpabilizando Lolita pelo abuso que ela sofreu. E isso só ocorre porque Nabokov é um escritor excelente, de talento incontestável, que conseguiu nos colocar dentro da cabeça de um pedófilo, fazendo uma crítica pesada acerca da sociedade que permite que estupradores e pedófilos roubem as histórias de suas vítimas, silenciando tudo o que elas têm a dizer. O livro é bom, sim. O mal está em romantizá-lo. Essa jamais foi a intenção do autor, que deixou bem claro seu ponto de vista em entrevistas.

E aos que ainda acham que pode haver amor na pedofilia – ainda que um amor doentio, mas amor – lhes deixo a seguinte reflexão: amor se trata de respeito, admiração e, acima de tudo, o desejo de ver o outro bem e feliz. Que tipo de respeito tem um pedófilo ao sequestrar, drogar e abusar de uma menina de 12 anos e ainda lhe culpar por tê-lo seduzido? Nenhum. Absolutamente nenhum. 

Foto do(a) MIA SODRÉ

MIA SODRÉ

Aprendiz de jornalista na PUCRS, tia da biblioteca, leitora compulsiva e metida a escritora nas horas vagas.

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